Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

Vingança

Todos os dias fantasiava com aquele momento em que havia sido interrogada na esquadra da polícia.

Lembrava-se de como a sua respiração havia acelerado, de como a sua roupa interior humedecera rapidamente. Do cheiro que emanava no ar, da pose dominante e ameaçadora do polícia que a interrogava sobre a morte de alguém.

Muito longe do que seria uma série policial.

Imaginou coisas enquanto respondia maquinalmente a sua versão da história, como se carregasse no “Play” de um gravador. Dava voltas ao raciocínio apenas com o objectivo de prolongar a sessão que na sua imaginação decorria, lançando furtivamente olhares sedutores ao homem fardado. Quando em pé, quase num sussurro, lhe perguntou onde tinha estado na noite anterior, imaginou-se a satisfazê-lo sem restrições, de joelhos, como vadia que era, vagabunda e rameira de desejo.

“Com quem estava nessa noite?”, perguntou o polícia impaciente. Todas as provas estavam contra ela. “Está com ciúmes, senhor polícia?”, respondeu, sempre provocadora.

Entre olhares gélidos e quentes, entre carícias e estaladas que não aconteceram, nasceu o silêncio. A troca de tiros cessou, e a guerra chegou a um impasse. Na mente de cada um algo decorria. Se a mesma coisa, ninguém sabe dizer ao certo.

O que é certo, é que todos os dias acorda humedecida entre gemidos com a fantasia na cabeça, e que através das barras vê o Sol de uma libertinagem que perdeu com um sopro de vingança.

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