Sábado, 8 de Agosto de 2009

Escrita Criativa #2

Algures numa praça vozes miudinhas enchem o ambiente. O cheiro a café domina e o vento empurra as preocupações de forma leve e despreocupada. Nessa praça há um rapaz perdido das suas raízes, que é balançado para trás e para a frente pelos empurrões estranhos e os tropeções violentos. Inevitavelmente, cai. Cai mas não se levanta. Cai mas continua estendido pela calçada num gesto que confirma uma hesitação; um sinal
de derrota.


Uma mão vinda e cheia de nada surge como mote para esperança nos olhos do pequeno rapaz, que os ergue em direcção ao vazio. Que vê ele? Uma silhueta tapada pela luz, destinada a causar desilusão. A mão chega mais perto mas muda subitamente de direcção para apanhar uma moeda caída, soltando um sorriso matreiro de cor branca na face ofuscada.


Os olhos enchem-se de lágrimas e o miúdo caído murmura algumas palavras que se desintegram no vazio silencioso da multidão, sem chegarem ao seu receptor, que já vai acolá, em passo apressado na direcção de uma tabacaria.


O miúdo agarra o calçado com unhas de fera e exerce uma pressão superior à sua capacidade e consegue pôr-se de joelhos para chorar o momento em que largou a mão da mãe, orientadora e educadora deste futuro cidadão que se afogou na sociedade.


Enxuga as lágrimas num lenço que esvoaçava perto, preso a uma árvore, e olha em redor mais uma vez. Parece ver a mãe ali ao fundo, a entrar numa pastelaria. Corre com todas as forças, mas a meio caminho, parece vê-la de onde viera, a cruzar uma passadeira em direcção a outra praça mais abaixo. Perde-a de vista. Sente-se confuso e perdido. Olha em redor esperançoso e vê-a ao fundo a entrar num pequeno café após uma passadeira ao lado esquerdo. Vira o olhar em frente e vê-a a entrar numa papelaria. Volta novamente e vê-a numa esplanada logo a seguir. Vê-a em dois sítios quase ao mesmo tempo e sente-se desorientado. Sente-se um mendigo vagante na areia de um deserto grande, sob o Sol do meio-dia, também, e com sinais de fome.


Cai mais uma vez. Cai, não; senta-se. Senta-se num dos degraus gigantes que fazem a divisão da praça. Ao seu lado uma estátua de pedra conforta-o, dizendo que a sua mãe virá em breve com um sorriso no rosto, uma mão esticada e uma aura radiante. Mas o rapaz não acredita. A ingenuidade e a inocência de criança já não é suficiente para o fazer acreditar numa esperança vã, numa ilusão, e cai na realidade. A estátua cala-se, as silhuetas da mãe desaparecem e o lenço desfaz-se em partículas minúsculas ao sabor do vento, rapidamente substituído por um Sol escaldante.


O rapaz imprime uma cara triste e um olhar vago, vazio, reflectindo claramente os seus sentimentos, a sua paranóia e desespero pessoal… Um outro rapaz passa a comer um pastel de nata de mão agarrada à mãe. Faz-lhe inveja e olha-o. O rapaz anónimo sente raiva pelo seu infortúnio e revolta-se. Pega numa pedra e atira à cabeça do idiota feliz inconsciente da sua sorte. A mão cai, a pedra voa, a cabeça abre-se, o corpo jaz no chão e o sangue espalha-se na calçada. Gritos. Gritos. Gritos. Gritos e berros. Drama e horror. Desespero e raiva, e um rapaz de pescoço cortado ao pé de uma montra partida, ouvindo feliz o choro da sua mãe a seu lado.

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